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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quintas do Seixal (1): Quinta da Boa Hora


(Entrada da Quinta da Boa Hora numa fotografia de Arrentela em 1886) (*)

A Quinta da Boa Hora era uma antiga propriedade agrícola, situada na Arrentela, que pertenceu na segunda metade do século XVII ao Padre João Monteiro, Clérigo do Hábito de São Pedro, e originário de uma família desta freguesia, os Monteiros.

A sua designação provinha da Capela da Quinta, hoje desaparecida como a maior parte dos antigos edifícios, e que este Padre terá mandado edificar em 1668.
Tratava-se da Ermida de Nossa Senhora da Boa Hora, que teve Licença para nela se dizer missa dada por Provisão do Cabido da Sé de Lisboa em 26 de Junho de 1668 e para qual o fundador se obrigou a dar 4$000 réis todos os anos, vinculados aos rendimentos da sua quinta por uma Escritura pública feita em 20 de Junho de 1668, nas notas do Tabelião lisboeta Pedro Andrade Maciel.

O Padre Jorge Monteiro faleceu em 15 de Junho de 1696 sendo sepultada na sua ermida (direito que lhe estava reservado como fundador e padroeiro da mesma), tendo ainda obrigado as suas propriedades a uma Capela, ou seja a um Vínculo com a Obrigação de missas pela sua alma, cuja administração ficou ao encargo dos seus sucessores, conforme nos relatam as visitações e memórias paroquiais de Arrentela do século XVIII e que também nos descrevem a Ermida e o culto que existia à sua volta:
(1724)
«é administrada por Theresa de Jesus, solteira e moradora em Lisboa, tem falta de paramentos».

(1736)
«Há dentro deste Lugar da Arrentella, em huma quinta, huma Ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Hora: he pequena, e de abobeda, pintada pelo tecto de brutescos, e as paredes bem cobertas de azulejos de figuras, com sua tribuna de talha ainda por dourar: a Imagem da Senhora he de vulto, e está collocada em seu nicho no meyo da tribuna: he Padroeira della a senhoria da quinta chamada Teresa de Jesus, moradora em Lisboa».
(1758)
«Dentro no lugar da Arrentela há uma só Ermida da invocação de Nossa Senhora da Boa-Hora anexa a uma quinta que é Capela de uma geração chamada dos Monteiros aonde concorre muita gente em todo ano principalmente mulheres pejadas».
(Imagem de Nossa Senhora da Boa Hora da antiga Capela da Quinta da Boa Hora na Arrentela) (**)

Pela sua proximidade à sede da freguesia e ainda pelos menores estragos sofridos no terramoto de 1755, serviu a Ermida da Boa Hora de sede provisória da Freguesia de Nossa Senhora da Consolação enquanto se procediam às obras de reedificação da Igreja Matriz, conforme se regista nos Livros da Paróquia em 24 de Novembro desse mesmo ano e ainda na visitação de 25 de Junho de 1757 em que o visitador constata que: «O Santíssimo está na Ermida de Nossa Senhora da Boa Hora».

Por falta de rendimentos este vínculo de Capela foi extinto por Provisão de D. José dada em 12 de Novembro de 1771 a pedido de Pedro Correia Pires e sua irmã, administradores do mesmo.

(Casas antigas edificadas na Quinta da Boa Hora)

Em 1827 a Quinta da Boa Hora pertencia a João António Porch e tinha um rendimento anual calculado em 100$400 réis.

Em 1845 era seu proprietário o Ministro da Marinha – Jerónimo José Falcão, o qual procedeu à reedificação ou reparação da Capela, que em 6 de Outubro de 1845 é visitada e de novo benzida pelo Pároco de Arrentela – o Prior Francisco José Ferreira.

Em 1849 aparece na posse da sua mulher D. Maria Rita Falcão que em Requerimento à Câmara do Seixal, datado de 30 de Março desse ano, diz que edificou na sua Quinta da Boa Hora um prédio urbano e melhorou a servidão pública que vai do Largo da Tendeirinha para a Azinhaga da Cruzinha.


A partir da década de 1970 a área da Quinta da Boa Hora foi dando origem a um bairro e urbanização com o mesmo nome.
A maior parte dos edifícios da quinta, incluindo a Capela, foram demolidos já no século XX tendo mesmo desaparecido o subsolo da antiga Capela (onde se encontraria a sepultura do seu fundador) pois na sequência de uma operação urbanística o sítio foi destruído pelas escavações realizadas em Agosto/Setembro de 2004, sendo as terras removidas para local incerto.

RUI M. MENDES
Arrentela, 27 de Abril de 2012

(*) Revisto em 26-05-2013 – Na década de 1970 foi caseiro da Quinta da Boa Hora o Sr. Joaquim Botas e a entrada principal da Quinta (que indevidamente identificamos anteriormente com a da Quinta do Cabral), ficava sensivelmente onde hoje se situa o Centro de Reformados (ver imagem). A Capela da Quinta, já em estado de degradação, foi depois adaptada a oficina de serralharia, antes de ser demolida em 2004.
(Informação do Sr. Irlando Tavares, autor do blogue http://arrentelavelha.blogspot.pt/ e co-autor do blogue http://trasdaponte.blogspot.pt/, a quem desde já agradecemos)
(Foto da Coleção Jorge Almeida Lima, publicada em “Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge de Almeida Lima. Catálogo da Exposição realizada entre 29 de Maio e 30 de Junho de 2010 na Biblioteca Municipal do Seixal)


(**) Revisto em 26-05-2013 – Imagem em madeira policromada da Senhora da Boa-Hora (Séc. XVII), com origem na Capela da Quinta da Boa-Hora – Arrentela, oferta da família proprietária da quinta através do Padre David Pinho, atualmente na Igreja Paroquial de Fernão Ferro, edificada em 1970.
(Cf. http://www.fernaoferro.pt/upload/pdf/patrimonio_historico.pdf)


Fontes:
Rui Mendes, «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no séc. XVIII», Anais de Almada, n.º 11-12 (2008-2009), pp. 67-138.
(1668) AHPL, Ms. 291: Lv. 13 do Registo Geral da Câmara Eclesiástica, f. 233;
(1696) ADS, Arrentela, Óbitos, Lv. 5, f. 42;
(1724) ACMS, Irmandade do Santíssimo Sacramento de Arrentela, Livro de Visitações de Arrentela;
(1755) ADS, Arrentela, Casamento, Lv.3, f.31;
(1757) TT, Confrarias, Irmandades e Mordomias –  Livro de Visitações de Arrentela (MIII N.º 2);
(1771) TT-CHR, D. José – Extinção de Capelas, Liv. 10, fól. 63v
(1827) TT, Impostos, Lv. 318: Lançamento de Décimas de 1827, f. 35
(1845) AHPL, SR.13.05: Correspondência da Vigararia de Almada;
(1849) ACMS, C/A/04/Cx 001
(2004) Carta do Património do Seixal, CPS.00076.

AHPL – Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa
ADS – Arquivo Distrital de Setúbal
ACMS – Arquivo da Câmara Municipal do Seixal
TT – Torre do Tombo

CHR – Chancelaria Régia

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Concelho do Seixal e a Fábrica de Lanifícios de Arrentela em 1862

Fonte: Archivo Pittoresco, Volume 5, 1862, pp. 164-167

FABRICA DE LANIFICIOS DA ARRENTELLA.

A fabrica de lanifícios que a nossa estampa representa desenhada do sitio mais frondoso e pittoresco com ser a mais recente de todas quantas ha hoje no districto de Lisboa tem já grande reputação no mercado pela variedade e perfeito acabamento dos seus productos.

Antes de darmos noticia da fábrica desejará o leitor conhecer o sitio onde ella está estabelecida qual é o logar da Arrentella na villa do Seixal outrora afamada pelas muitas quintas que alli tinha a nossa fidalguia e os frades excellentes brévias.

Devemos ao sr. Manuel Teixeira de Sousa acreditado facultativo d’aquella villa a resenha que se segue:

«O concelho do Seixal está situado na margem esquerda do Tejo fronteiro a Lisboa de que dista duas legoas. Consta de quatro freguezias a de NS da Conceição do Seixal, a de NS da Consolação da Arrentella, a de NS da Anunnciada da aldeia de Paio Pires e a de NS do Monte Sião da Amora. É povoado por 5.069 indivíduos distribuídos por 1.475 fogos.

As primeiras três freguezias estão assentadas num tracto de terra de forma mais ou menos regularmente triangular estendendo se de N a S uma legoa e de L a SE outro tanto pouco mais ou menos incluindo os casaes e pinhal que pertencem ás mesmas freguezias.

A villa do Seixal que é cabeça do concelho está situada na extremidade norte junto da praia banhada pelas aguas do Tejo que ahi fazem uma enseada a qual bifurcando se vae com uma das bifurcações para SE até se encontrar com as aguas do rio do Judeu e com a outra dirigida para noroeste banha a freguezia de Amora até expirar em Corroios Tem duas ruas principaes de forma semicircular com a convexidade para o norte e a concavidade para o sul algumas pequenas travessas e becos com dois ou três largos de pequena capacidade.

É formada por 603 fogos habitados por 1.125 indivíduos do sexo masculino e 1.106 do sexo feminino.

Não tem edifícios notáveis pelo contrario quasi todas as construcções são acanhadas e muitas sem condições de salubridade. Possue três fábricas de productos chimicos pertencente a Padrel & C pouco estabelecida, outra de sabão pelo processo hespanhol e outra de sola antiga e notável pelo seu bom fabrico.

Os habitantes do Seixal quasi todos se empregam na pesca fora da barra. Muito poucos são fazendeiros e ainda menos artistas.


Partindo do Seixal para sueste ao longo da banhada por um dos ramos da bifurcação da enseada fica a um quarto de legoa pouco mais ou menos logar da Arrentella situado numa encosta onde a maior parte dos habitantes da freguezia e a metros mais para SO está um logarejo chamado Torre da Marinha hoje notavel porque em suas faldas está edificada a fabrica que a estampa representa. Este logarejo com o logar da Arrentella e alguns casaes disseminados pelo Sul contém 338 fogos com 514 individuos do sexo masculino e 432 feminino. Os seus edifícios são também muito acanhados espalhados sem ordem e com tal irregularidade que nem formam o que se possa chamar uma rua.

No caminho do Seixal para a Torre encontra a quinta de Paulo Jorge onde está edificada a fábrica de productos chimicos, logo adiante a do Oiteiro pertencente a João Coelho de Abreu, em seguida a Val de Grou ou da Fidalga pertencente a Manuel Gama, a das Cavaquinhas e a do Cabral que estão mesmo no logar da Arrentella. Daqui até á Torre há mais pequenas propriedades pertencentes a diversos. Para o sul tanto do Seixal como da Arrentella há differentes quintas e muitos casaes com fazendas annexas.

A freguezia da Arrentella ainda se estende para sueste obra de tres quartos de legoa tudo pinhal que foi dos frades Jeronymos e hoje pertencente a herdeiros de Abraham Wheelhouse. Os seus habitantes quasi que exclusivamente se empregam na indústria agrícola.

Partindo do Seixal para léste encontra se a quinta de D. Maria onde existe a fabrica de sola que já mencionámos em seguida a da Trindade e ultimamente uma ponta de terra que entra pelas águas do Tejo e constitue o chamado rio de Coina onde estão situados dois grandes armazéns do estado e na praia contígua muita madeira sotterrada para construcções navaes. A este logar chama-se Azinheira. Voltando deste ponto para o sul segue o rio de Coina na extensão de uma legoa em cuja margem se notam algumas intercepções devidas a pequenas enseadas que faz o mesmo rio e que dão serventia pública e particular a differentes quintas que estão na ordem seguinte: Parte da dita quinta da Trindade, a dos Paulistas, duas azenhas de água salgada com quatorze pedras para moagem de trigos, a do Álamo, a da Madre de Deus com uma azenha também de oito pedras, a quinta do Descanço, a dos Loureiros, a da Ponte, a do Portinho, a de D. Maria (freguezia de aldeia de Paio Pires), a quinta das Cannas, a do Leilão, a do Lima, a da Palmeira, com uma azenha de sete ou oito pedras, a do Brejo (em Cucena), a Cabo da Linha, a Quinta Nova com um lagar de azeite. Segue se um pequeno tracto de pinhal que vai terminar junto de uma azenha chamada de José Moto onde finalisa por este lado o concelho. Quasi estas quintas nada tem de notável a não ser a deterioração de algumas e o pouco ou nenhum lucro de todas.

A freguezia de aldeia de Paio Pires está collocada nesta margem e começa no sitio de desembarque chamado o Portinho onde já notámos a quinta do mesmo nome. Está assente numa pequena eminência lançada de leste a oeste tem uma só rua tortuosa; os prédios têm mais alguma regularidade e condições de salubridade. É aqui onde habita o maior numero de gente achando-se o resto disseminado por differentes e pouco importantes quintas e casaes ao sul e oeste. Tem 259 fogos 562 habitantes do sexo masculino e 527 do feminino empregando-se todos na lavoira.

Como se vê por esta resenha estas tres freguezias formam um triangulo estando a do Seixal na extremidade norte a da Arrentella na de sueste e a de aldeia de Paio Pires na extremidade de leste. Distam umas das outras um quarto de legoa pouco mais ou menos.

A freguezia da Amora fica fronteira á da Arrentella de que está separada em parte pela enseada do Tejo de que já fallamos que começa no Seixal e vae terminar por uma das suas bifurcações na fabrica de lanificios e em parte por um pequeno regato que chamam rio do Judeo o qual passa junto da mesma fabrica e lhe fornece as suas aguas. Esta freguezia pelo lado do sul e nascente é banhada pelas aguas de que ha pouco fizemos menção e pelas da outra bifurcação da mesma enseada que dirigindo se para noroeste vae terminar no logar de Corroios junto d’uma azenha de 8 pedras. A sua população é de 562 habitantes do sexo masculino e 527 do feminino habitando 279 fogos disseminados por uma área de meia legoa de norte a sul e outro tanto de leste a oeste pouco mais ou menos sem symetria nem arruamento. Tem hoje uma fabrica de moagem e descasque d arroz a vapor.

Pelas orlas das enseadas há differentes quintas de pouca notoriedade exceptuando a de S. Alteza a Serenissima Senhora D. Isabel Maria ao noroeste da freguezia para as bandas de Corroios onde se nota bello e antigo arvoredo, restos de antigos tanques e cascatas tudo deteriorado e como abandonado.

Eis em resumo a descripção das freguezias que constituem o concelho do Seixal o qual está cingido pelo de Almada ao norte e noroeste pelo de Cezimbra a oeste e soeste pelo sul por o de Azeitão pelo norte em parte e pelo nascente pelas águas do Tejo. O terreno é accidentado argilo-arenoso predominando mais na grande maioria da extensão o ultimo principio. É muito próprio para vinha sem deixar de ter aptidão para outras culturas, Arvores d espinho e caroço dão se em alguns sítios excellentemente. Os legumes e cereaes também se criam menos mal segundo o favor da estação. A propriedade está muito dividida. A videira é o género escolhido e preferido para as plantações intermeiadas e orladas d’árvores de differentes géneros e espécies. Pelo meio das vinhas semeia-se milho e feijão. Os fructos são excellentes a uva é especial e produz vinho magnifico para exportação. Os outros fructos são muito procurados, a laranja talvez seja a primeira que sae para os portos de Inglaterra. O terreno com quanto não d’uma fertilidade admirável comtudo se não ainda luctando com as epidemias vegetaes indenmisava bem o lavrador do seu constante e arduo trabalho. A producção do vinho que era donde o lavrador esperava o reembolso e remuneracão hoje reduzida a 1/5 ou ¼. De um mappa official obtido da administração se pode ver a somma productos mais importantes deste concelho 508 pipas ha dez ou doze annos era de 3 000, azeite 35, trigo 4 668 alqueires, milho 31 476 ditos, centeio 1926, cevada 988, feijão 7 500, fava 30, grão de bico 106, laranja 1 777 milheiros ou 1 161 caixas inglezas, limão 4 milheiros, lã 168 kilogrammas, mel 143, cera 20. Há também um producto importante em lenha de pinho que é uma das arvores florestaes que melhor se dá aqui e de que há grande quantidade de sorte que os pinhaes formam um cerco ás quatro freguezias.

As aguas d’este sitio são excellentes em quasi todas as quintas. No Seixal há um unico poço de boa água e abundantes nascentes. Na Arrentella há outro porém não é tão bom. Na aldeia de Paio Pires também se extrahe de um único poço porém muito assalobrada. Usam d’ella para lavagens para beber vão buscá-la ás quintas particulares. A Amora tem bella água que rebenta continuamente por de um muro junto á praia O povo provêm-se d’ella nabaixa mar porque a maré quando está em meio cobre a nascente. A câmara municipal já está auctorisada para remediar este inconveniente e necessita também de augmentar a quantidade d’agua nas freguezias e procurar outra melhor na aldeia de Paio Pires.

Os habitantes do Seixal são repetimos quasi todos pescadores. Para mais nada tem aptidão donde lhe provém ficarem expostos á miséria nos invernos tempestuosos. Os das outras freguezias são laboriosos. Desde crianças que vão habituados aos trabalhos do campo e é raro que se destinem para outros misteres e nenhum que eu saiba para as letras.



A salubridade do concelho na maior parte do anno é regular. De julho até outubro e novembro apparecem as febres intermittentes e remittentes de todos os typos e generos assolando os trabalhadores e as povoações mais visinhas dos arrozaes que se tem feito nestes últimos annos em larga escala nos concelhos limitrophes. O augmento e a perniciosidade d’estas febres tem se declarado na razão directa do incremento que tomaram os arrozaes e do descuido da limpeza das vallas nos logares brejoeiros. Há bem fundadas esperanças de melhorar a saúde publica quando se transformar em lei vigente o projecto do respectivo ministro fundado num extenso relatório onde a sciencia, a razão e os factos escrupulosamente apreciados por uma competentíssima commissão elaboraram a sentença condemnatoria.

A villa do Seixal pelo seu acanhamento pela péssima construcção das casas, pela densidade da população, pela natural disposição para o pouco aceio e limpeza era muito sujeita a epidemias. Depois que as autoridades mandaram calçar as ruas e fazer a limpeza dellas com uma tal ou qual regularidade e que os habitantes tem sido por vezes admoestados para observarem as regras hygienicas compativeis com o seu estado é que se tem ganho muito e mais se ganharia se os habitantes na sua grande maioria não reincidissem na infracção das admoestações e mesmo das posturas municipaes.

A falta de educação não lhes deixa perceber a vantagem da austera observância dos preceitos da limpeza do corpo, das casas e das ruas».

O logar da Arrentella donde esta fabrica tomou o nome por alli estar situada tem origem descouberida quanto a sua etymologia. Uns dizem que por ser terra levantada e despenhada para a parte do mar lhe chamaram os antigos Arrectatellus outros que já se denominou Arrentella por causa de estar em sitio levantado onde commummente reinam os ventos Alguns poremm dizem que se deve ser Arrentella por ter muitos arenosos 0 certo é que desde muito tempo se chama Arrentella.

Por ser logar mui abundante de águas e à beira do Tejo estabeleceu alli um Audré Durrieu no principio deste século um lavadoiro de lãs acrescentando o seu estabelecimento com armazéns casas e brejos que aforou aos frades do Carmo senhorios de parte daquelles terrenos.

Em 1831 comprou o governo ao referido Durrieu esta propriedade por três contos de réis para alli estabelecer uma fábrica de mantas para o exército.

Esta fábrica não durou muitos annos, os armazens arruínaram-se até que se venderam juntamente com outros bens dos frades a João Rodrigues Blanco que a renovou para alli estabelecer uma fábrica de estamparia de algodões a qual prosperou por muito tempo até que decaiu com a alteração dos direitos da pauta.

Esteve fechada por alguns annos e em 1855 o sr. Júlio Caldas Aulete formou uma parceria mercantil para alli fundar uma fábrica de lanifícios com o capital de 160:000$000 rs em acções de 100$000 rs. Começaram logo as edificações necessárias compraram-se machinas para trabalhar a vapor e em 1858 começou a fabricar produzindo logo no primeiro anuo 10.650 metros de pannos pretos, azues e mesclas.

Em 1859 entrou para gerente administrador desta parceria o sr. Manuel Egreja que lhe deu grande impulso e tanto que nesse anuo produziu a fábrica da Arrentella 21.475 metros das mesmas fazendas e diversas casimiras de côres.

No anno de 1861 já os productos tinham adquirido tal perfeição que esta fábrica mandou á exposição industrial do Porto um variado sortimento de pannos aveludados casimiras e castorinas de diversas cores mesclas finas e ordinarias tudo escolhido no seu depósito e não expressamente fabricado para a Exposição. Também remetteu juntamente varias amostras de fio de lã de diversas côres.

Esta fabrica foi uma das premiadas n’esta Esposição.

No mesmo anuo de 1861 produziu a fabrica da Arrentella perto de 40.000 metros dos diversos tecidos já mencionados.

Para elevar o seu capital a 200:000$3000 rs foi a parceria da Arrentella transformada em companhia por escriptura de 10 de maio próximo passado. Tem esta fábrica uma excedente machina de vapor da força de 48 cavallos que trabalha continuamente com toda a sua força. É obra da officina nacional do sr Colbires e a primeira que se fez em Portugal.

Tem mais 6 machinas de fiação com 1.500 fusos, 32 teares mechanicos além dos teares niauuaes diversas machinas de lavar cardar urdir lustrar e outras para tinturaria ludas aperfeiçoadas Possue além d isto as necessarias clTicinas de serrai heria e carpintaria etc.

Calcula-se em 150 rontos de réis o valor dos edificios machinas utensilios lã em deposito ete 0 edilicio que mostra a nossa gravura é o da fabrica separado das outras offieiuas Consta de tres pavimentos Ao terreo está o motor o lavadoiro ea tinturaria No segundo os teares no terceiro a fiação e trabalhos de acabamento.

Emprega diariamente termo médio 160 operarios entre homens mulheres rapazes e raparigas.

Este trafego tem aviventado o legar da Arrentella dantes Ião pobre e inculto por faRa de trabalho para a maioria da povoação.

As lãs que alli se consomem são do termo de Lisboa do Alemtejo de Hespanha de Buenos Ayres e de Alemanha toda de boa qualidade de que tem sempre grande deposito.

Muitos productos d esta fabrica rivalisam já com os das estrangeiras e de dia para dia se aperfeiçoam.

A presidencia da direcção da nova companhia foi confiada pela assembléa geral ao sr Manuel Egreja poderoso capitalista que apesar de ser subdito hes panhol é um dos mais zelosos e benemeritos promotores da nossa industria 0 grande capital que tem empregado n esta fabrica o desvelo e intelligenciacom que a tem feito progredir promette um esperançoso futuro a este estabelecimento e vantajosos lucros aos accionistas.

História da Paróquia de Arrentela e da Torre da Marinha

(Nota: Este Artigo poderá ser revisto no futuro caso se justifique, e quaisquer revisões serão assinaladas com a respectiva [DATA])


A Arrentela é povoação antiga, sendo já citada em Crónicas do século XIV, no entanto a ocupação humana destes lugares é muito mais antiga como comprovam as recentes escavações de uma Villa Romana na Quinta de S. João e na Quinta da Laranjeira ou das Laranjeiras (com vestígios dos Períodos Romano, Medieval e Moderno).
Foi no entanto por volta da segunda metade do século XIV, princípios do século XV, que os lugares ribeirinhos da Baía do Seixal (a chamada «Barca de Martim Afonso») começaram a ser mais aproveitados economicamente como documentará mais tarde a construção de vários moinhos de água nas suas margens. Por outro lado e já no século XV o início da epopeia marítima trouxe até estas margens novas actividades ou desenvolveu as existentes como a construção naval ou a produção de bens alimentícios como o biscoito ou ainda a vinha, basta lembrar que já nesse século e no seguinte os vinhos do Seixal, junto com os de Caparica, eram dos mais famosos da Europa .

Na segunda metade do século XVI Gaspar Frutuoso na sua obra Saudades da Terra ao descrever esta margem do Tejo fala do «Seixal também chamado Arrentela, onde se dão muitos bons vinhos de carregação para a Índia» (cit. Francisco M. Silva, Ruralidade em Almada e Seixal. Tese de Mestrado, 2008, p. 17).

É todo este desenvolvimento económico que traz a estas paragens novas populações que por sua vez se vão constituindo em novas comunidades cada vez mais reivindicativas dos seus direitos, entre eles o direito a não enterrarem os mortos longe dos seus entes queridos, o direito a terem um lugar onde pudessem assistir ao culto religioso sem terem de se deslocar às sede municipal, e por fim o direito a elegerem o seu próprio ministro ou capelão sem terem de estar dependentes das disponibilidades de terceiros.

É assim que nos lugares mais distantes do termo da vila de Almada (onde Arrentela se inseria nesse tempo) que nos séculos XIV-XV vão sendo edificadas pequenas ermidas e onde a partir do último quartel do século XVI se estabelecem novas freguesias com capelão para a cura das almas eleito pelos fregueses dessas ermidas.

(Cruzeiro de Arrentela, local de culto mais antigo do lugar ?)

É neste contexto que surge a Freguesia de Arrentela, não sabemos em que data e muito menos em que ano exacto, sabemos apenas que essa erecção aconteceu por iniciativa do povo que se reunia regularmente na sua «Ermida de Santa Maria de Arrentela», a qual já existia pelo menos antes de 1478 (ano em que foi visitado pelos visitadores da Ordem de Santiago), o qual impetrou junto da Santa Sé uma Petição de Licença para terem um Capelão com Cura de Almas que fosse eleito e sustentado pelos próprios fregueses com a obrigação de dizer missa na sua ermida nos Domingos e Dias Santos e de ministrar os demais sacramentos.
Foi aliás processo idêntico ao verificado na Caparica (que alcançou esse direito em 1472) assim como na Amora (que já tinha capelão com cura de almas em 1527).

As inscrições mais antigas na Igreja de Arrentela apontam a sua edificação próxima de 1519 e 1522 (data de um enterramento testemunhado numa bela pedra tumular, junto a capela-mor). Dedicada a N.ª Sr.ª da Consolação, este título poderá ter alguma influência do Convento Paulista de N.ª Sr.ª da Consolação de Alferrara, no termo de Palmela, fundado em 1383 e reformado em 1428 por Mendo Gomes Seabra, sabendo-se que era, no início do séc. XVI a casa religiosa mais próxima deste lugar e que eram estas comunidades religiosas que muitas vezes assistiam às populações mais distantes das matrizes paroquiais.

Os primeiros registos paroquiais, fruto das reformas decididas pelo Concílio de Trento, datam já de 1581, sendo dos mais antigos do concelho do Seixal.

Em 1620, segundo Frei Nicolau de Oliveira (Livro das Grandezas de Lisboa), Arrentela tinha 350 fogos, com 890 habitantes.

(Igreja Matriz de Arrentela)

Na primeira metade do século XVIII (Dicionário Geográfico de 1747) o pároco de Arrentela tinha o título de Cura, e a paróquia tinha «quatro Irmandades: uma do Santíssimo Sacramento com seu capelão, outra das Almas também com seu capelão, tem outra de São Pedro, e outra de Nossa Senhora do Rosário; e uma confraria do Senhor Jesus, e Nossa Senhora da Soledade com um capelão a quem pagam os homens do mar do seu bolsinho, como também o partido do Médico, Cirurgião, e Boticário, e de presente tiram para as obras da Igreja a metade do ganho dos seus barcos».

Com o terramoto de 1755 ruiu a Igreja Paroquial, pelo que houve a necessidade de a reedificar, obra levada a cabo pelo povo da freguesia que por ser fabriqueiro da mesma teve de fazer esta obra sem mais apoio do que a força e trabalho do mesmo.

(Memorial da reedificação da Igreja Matriz)

No século XIX o pároco de Arrentela já tinha o título de Prior e a maioria das Confrarias ou Irmandades já tinham sido extintas.

Foi ainda durante o século XVIII que foram subtraídas à área da paróquia da Arrentela novas freguesias que se estabeleceram nos lugares do Seixal, por Provisão de D. Tomás de Almeida, 1.º Cardeal Patriarca de Lisboa, dada em 23 de Junho de 1734 (Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 9, pp. 76-81), e de Aldeia de Paio Pires, por Provisões dadas pela Ordem de Santiago, em 23 de Janeiro de 1797 (DGARQ-TT, Ordem de Santiago, Chancelaria de D. Maria, Liv. 7, fól. 24), e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa D. José de Mendonça, em 25 de Fevereiro de 1797 –(Patriarcado de Lisboa, Arquivo Histórico, Ms. 298, fól. 217).


Torre da Marinha
A localidade da Torre ou Torre da Marinha é uma das mais antigas da Freguesia de Arrentela e seu nome poderá ter uma de duas origens: ou uma antiga Torre de Vigia, ou uma antiga Casa senhorial acastelada que aqui terá existido, conforme parece indicar uma escritura de arrendamento lavrada em Lisboa em 4 de Setembro de 1572 por uma tal de «Valentina Brandoa, viúva de Lourenço de Moura, moradora no Castello da sua Quinta da Senhora da Consolação na Arrentela» (Index de Notas de Vários Tabeliães de Lisboa, Vol. IV, p. 149).

Ao topónimo Torre juntou-se mais tarde o «da Marinha» para a distinguir da outra Torre que existia no século XVIII termo de Almada, a Torre de Caparica.

Na Torre da Marinha havia uma quinta que era conhecida pela Quinta da Torre, que sabemos ter existido em 1590 (Vieira, 1993, V.1, p.347) e que em 1621 pertencia a Valentim Themudo.

Sabemos também que na Torre ou próximo dela houve até ao século XVIII-XIX pelo menos 3 capelas particulares onde se podia dizer missa, a saber:

- A Ermida de St.ª Ana, na Quinta Nova «do Inglês», que em 1758 pertencia a Bartolomeu Xavier, seria contudo mais antiga pois já em 1675 se celebrou um casamento na Quinta Nova (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 3, fól. 60) [Revisto em 21-9-2011];

- A Ermida da Quinta de S. Lourenço, na Lagoa Seca, que em 1676 pertencia a Manuel Antunes (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Óbitos, Liv. 3, fól. 11v) e no século XVIII aparece referida nas Visitações eclesiásticas do Patriarcado de Lisboa;

- A Ermida de N.ª Sr.ª das Dores, edificada em 1803 pelo Pe. João António Correia na sua Quinta da Prata (Cf. Rui Mendes, «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no século XVIII», Anais de Almada, 11-12 (2008-2009), pp. 67-138, 2010, Almada);


Já no século XX foi edificada a:

- A Capela de N.ª Sr.ª da Soledade, edificada cerca de 1937 (segundo parecia indicar um registo azulejar local, actualmente em depósito na C.M.S., com a imagem da padroeira e que registava esta data), na Quinta das Laranjeiras ou de N.ª Sr.ª da Soledade, antiga Quinta da Casa de Pau, que nos anos 60 pertencia a José Guilherme Carvalho Duarte, e onde já em 1805 havia um Oratório particular pertencente ao Capitão João Crisóstomo e Silva  (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 9, fól. 77v) [Adicionado em 21-9-2011].



As condições naturais propícias, sobretudo com a abundância de água, trouxeram para a Torre a indústria dos lanifícios, primeiro com um um lavadoiro de lãs e depois com uma uma fábrica de mantas para o exército em 1831. É no entanto com a implementação em 1855 da Fábrica de Lanifícios da Arrentela por Júlio Caldas Aulete e que em 1862 se estabeleceu como “Companhia de Lanifícios de Arrentela”, que esta indústria ganha projecção quer nacional quer até mesmo internacional.

Em 1872, um grupo de operários da Companhia de Lanifícios de Arrentela fundou a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense, que em 30 de Maio de 1901 recebeu do Rei D. Carlos o Título de «Real» (Nuno Borrego, Mordomia Mor da Casa Real, Tomo II, p. 542). Em 1914, a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense fundiu-se com a Sociedade Honra e Glória Arrentelense dando origem à actual Sociedade Filarmónica União Arrentelense (SFUA) (http://www.sfua.pt/) [Adicionado em 21-9-2011].


É através da fixação de trabalhadores para a indústria que se vai consolidando urbanisticamente a Torre cujo núcleo central apresenta construções desse período 2.ª metade do século XIX e primeira do século XX.

Com o decréscimo da empregabilidade do sector dos lanifícios outros factores contribuíram para o crescimento urbano da Torre da Marinha, numa 1.ª fase a construção da Ponte sobre o Rio Tejo e respectiva ligação ao Fogueteiro assim como a instalação da Siderurgia Nacional em Paio Pires, numa 2.ª fase pós 25 de Abril o processo de descolonização seguido do boom urbanístico das periferias, sobretudo de Lisboa e Porto.

Em termos arquitectónicos e patrimoniais a Torre da Marinha apresenta um grande grau de descaracterização quer do seu património de cariz rústica quer industrial, sobrevindo as instalações fabris da Companhia de Fiação e existindo já poucos vestígios recuperáveis das antigas circundantes.

Do ponto de vista urbano o núcleo histórico apresenta algumas habitações da primeira metade do século XX.

Em termos de equipamentos para além das Piscinas [e do Pavilhão Municipal] apresenta-se como elemento arquitectónico mais característico a Escola Primária do Plano dos Centenários, tão típica da Arquitectura do Estado Novo, sendo neste caso uma obra de 1955 pelo Eng.º Rogério Leão de Almeida.
(Boletim do Ministério das Obras Públicas, 1955)

A construção e inauguração da nova Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima traz assim uma mais valia para o património, não só desta localidade, como também desta freguesia e deste Concelho.


RUI M. MENDES
Arrentela, 18 de Setembro de 2011