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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Quintas do Seixal (1): Quinta da Boa Hora


(Entrada da Quinta da Boa Hora numa fotografia de Arrentela em 1886) (*)

A Quinta da Boa Hora era uma antiga propriedade agrícola, situada na Arrentela, que pertenceu na segunda metade do século XVII ao Padre João Monteiro, Clérigo do Hábito de São Pedro, e originário de uma família desta freguesia, os Monteiros.

A sua designação provinha da Capela da Quinta, hoje desaparecida como a maior parte dos antigos edifícios, e que este Padre terá mandado edificar em 1668.
Tratava-se da Ermida de Nossa Senhora da Boa Hora, que teve Licença para nela se dizer missa dada por Provisão do Cabido da Sé de Lisboa em 26 de Junho de 1668 e para qual o fundador se obrigou a dar 4$000 réis todos os anos, vinculados aos rendimentos da sua quinta por uma Escritura pública feita em 20 de Junho de 1668, nas notas do Tabelião lisboeta Pedro Andrade Maciel.

O Padre Jorge Monteiro faleceu em 15 de Junho de 1696 sendo sepultada na sua ermida (direito que lhe estava reservado como fundador e padroeiro da mesma), tendo ainda obrigado as suas propriedades a uma Capela, ou seja a um Vínculo com a Obrigação de missas pela sua alma, cuja administração ficou ao encargo dos seus sucessores, conforme nos relatam as visitações e memórias paroquiais de Arrentela do século XVIII e que também nos descrevem a Ermida e o culto que existia à sua volta:
(1724)
«é administrada por Theresa de Jesus, solteira e moradora em Lisboa, tem falta de paramentos».

(1736)
«Há dentro deste Lugar da Arrentella, em huma quinta, huma Ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Hora: he pequena, e de abobeda, pintada pelo tecto de brutescos, e as paredes bem cobertas de azulejos de figuras, com sua tribuna de talha ainda por dourar: a Imagem da Senhora he de vulto, e está collocada em seu nicho no meyo da tribuna: he Padroeira della a senhoria da quinta chamada Teresa de Jesus, moradora em Lisboa».
(1758)
«Dentro no lugar da Arrentela há uma só Ermida da invocação de Nossa Senhora da Boa-Hora anexa a uma quinta que é Capela de uma geração chamada dos Monteiros aonde concorre muita gente em todo ano principalmente mulheres pejadas».
(Imagem de Nossa Senhora da Boa Hora da antiga Capela da Quinta da Boa Hora na Arrentela) (**)

Pela sua proximidade à sede da freguesia e ainda pelos menores estragos sofridos no terramoto de 1755, serviu a Ermida da Boa Hora de sede provisória da Freguesia de Nossa Senhora da Consolação enquanto se procediam às obras de reedificação da Igreja Matriz, conforme se regista nos Livros da Paróquia em 24 de Novembro desse mesmo ano e ainda na visitação de 25 de Junho de 1757 em que o visitador constata que: «O Santíssimo está na Ermida de Nossa Senhora da Boa Hora».

Por falta de rendimentos este vínculo de Capela foi extinto por Provisão de D. José dada em 12 de Novembro de 1771 a pedido de Pedro Correia Pires e sua irmã, administradores do mesmo.

(Casas antigas edificadas na Quinta da Boa Hora)

Em 1827 a Quinta da Boa Hora pertencia a João António Porch e tinha um rendimento anual calculado em 100$400 réis.

Em 1845 era seu proprietário o Ministro da Marinha – Jerónimo José Falcão, o qual procedeu à reedificação ou reparação da Capela, que em 6 de Outubro de 1845 é visitada e de novo benzida pelo Pároco de Arrentela – o Prior Francisco José Ferreira.

Em 1849 aparece na posse da sua mulher D. Maria Rita Falcão que em Requerimento à Câmara do Seixal, datado de 30 de Março desse ano, diz que edificou na sua Quinta da Boa Hora um prédio urbano e melhorou a servidão pública que vai do Largo da Tendeirinha para a Azinhaga da Cruzinha.


A partir da década de 1970 a área da Quinta da Boa Hora foi dando origem a um bairro e urbanização com o mesmo nome.
A maior parte dos edifícios da quinta, incluindo a Capela, foram demolidos já no século XX tendo mesmo desaparecido o subsolo da antiga Capela (onde se encontraria a sepultura do seu fundador) pois na sequência de uma operação urbanística o sítio foi destruído pelas escavações realizadas em Agosto/Setembro de 2004, sendo as terras removidas para local incerto.

RUI M. MENDES
Arrentela, 27 de Abril de 2012

(*) Revisto em 26-05-2013 – Na década de 1970 foi caseiro da Quinta da Boa Hora o Sr. Joaquim Botas e a entrada principal da Quinta (que indevidamente identificamos anteriormente com a da Quinta do Cabral), ficava sensivelmente onde hoje se situa o Centro de Reformados (ver imagem). A Capela da Quinta, já em estado de degradação, foi depois adaptada a oficina de serralharia, antes de ser demolida em 2004.
(Informação do Sr. Irlando Tavares, autor do blogue http://arrentelavelha.blogspot.pt/ e co-autor do blogue http://trasdaponte.blogspot.pt/, a quem desde já agradecemos)
(Foto da Coleção Jorge Almeida Lima, publicada em “Representações do Seixal e da Época no Olhar de Jorge de Almeida Lima. Catálogo da Exposição realizada entre 29 de Maio e 30 de Junho de 2010 na Biblioteca Municipal do Seixal)


(**) Revisto em 26-05-2013 – Imagem em madeira policromada da Senhora da Boa-Hora (Séc. XVII), com origem na Capela da Quinta da Boa-Hora – Arrentela, oferta da família proprietária da quinta através do Padre David Pinho, atualmente na Igreja Paroquial de Fernão Ferro, edificada em 1970.
(Cf. http://www.fernaoferro.pt/upload/pdf/patrimonio_historico.pdf)


Fontes:
Rui Mendes, «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no séc. XVIII», Anais de Almada, n.º 11-12 (2008-2009), pp. 67-138.
(1668) AHPL, Ms. 291: Lv. 13 do Registo Geral da Câmara Eclesiástica, f. 233;
(1696) ADS, Arrentela, Óbitos, Lv. 5, f. 42;
(1724) ACMS, Irmandade do Santíssimo Sacramento de Arrentela, Livro de Visitações de Arrentela;
(1755) ADS, Arrentela, Casamento, Lv.3, f.31;
(1757) TT, Confrarias, Irmandades e Mordomias –  Livro de Visitações de Arrentela (MIII N.º 2);
(1771) TT-CHR, D. José – Extinção de Capelas, Liv. 10, fól. 63v
(1827) TT, Impostos, Lv. 318: Lançamento de Décimas de 1827, f. 35
(1845) AHPL, SR.13.05: Correspondência da Vigararia de Almada;
(1849) ACMS, C/A/04/Cx 001
(2004) Carta do Património do Seixal, CPS.00076.

AHPL – Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa
ADS – Arquivo Distrital de Setúbal
ACMS – Arquivo da Câmara Municipal do Seixal
TT – Torre do Tombo

CHR – Chancelaria Régia

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

História da Paróquia de Arrentela e da Torre da Marinha

(Nota: Este Artigo poderá ser revisto no futuro caso se justifique, e quaisquer revisões serão assinaladas com a respectiva [DATA])


A Arrentela é povoação antiga, sendo já citada em Crónicas do século XIV, no entanto a ocupação humana destes lugares é muito mais antiga como comprovam as recentes escavações de uma Villa Romana na Quinta de S. João e na Quinta da Laranjeira ou das Laranjeiras (com vestígios dos Períodos Romano, Medieval e Moderno).
Foi no entanto por volta da segunda metade do século XIV, princípios do século XV, que os lugares ribeirinhos da Baía do Seixal (a chamada «Barca de Martim Afonso») começaram a ser mais aproveitados economicamente como documentará mais tarde a construção de vários moinhos de água nas suas margens. Por outro lado e já no século XV o início da epopeia marítima trouxe até estas margens novas actividades ou desenvolveu as existentes como a construção naval ou a produção de bens alimentícios como o biscoito ou ainda a vinha, basta lembrar que já nesse século e no seguinte os vinhos do Seixal, junto com os de Caparica, eram dos mais famosos da Europa .

Na segunda metade do século XVI Gaspar Frutuoso na sua obra Saudades da Terra ao descrever esta margem do Tejo fala do «Seixal também chamado Arrentela, onde se dão muitos bons vinhos de carregação para a Índia» (cit. Francisco M. Silva, Ruralidade em Almada e Seixal. Tese de Mestrado, 2008, p. 17).

É todo este desenvolvimento económico que traz a estas paragens novas populações que por sua vez se vão constituindo em novas comunidades cada vez mais reivindicativas dos seus direitos, entre eles o direito a não enterrarem os mortos longe dos seus entes queridos, o direito a terem um lugar onde pudessem assistir ao culto religioso sem terem de se deslocar às sede municipal, e por fim o direito a elegerem o seu próprio ministro ou capelão sem terem de estar dependentes das disponibilidades de terceiros.

É assim que nos lugares mais distantes do termo da vila de Almada (onde Arrentela se inseria nesse tempo) que nos séculos XIV-XV vão sendo edificadas pequenas ermidas e onde a partir do último quartel do século XVI se estabelecem novas freguesias com capelão para a cura das almas eleito pelos fregueses dessas ermidas.

(Cruzeiro de Arrentela, local de culto mais antigo do lugar ?)

É neste contexto que surge a Freguesia de Arrentela, não sabemos em que data e muito menos em que ano exacto, sabemos apenas que essa erecção aconteceu por iniciativa do povo que se reunia regularmente na sua «Ermida de Santa Maria de Arrentela», a qual já existia pelo menos antes de 1478 (ano em que foi visitado pelos visitadores da Ordem de Santiago), o qual impetrou junto da Santa Sé uma Petição de Licença para terem um Capelão com Cura de Almas que fosse eleito e sustentado pelos próprios fregueses com a obrigação de dizer missa na sua ermida nos Domingos e Dias Santos e de ministrar os demais sacramentos.
Foi aliás processo idêntico ao verificado na Caparica (que alcançou esse direito em 1472) assim como na Amora (que já tinha capelão com cura de almas em 1527).

As inscrições mais antigas na Igreja de Arrentela apontam a sua edificação próxima de 1519 e 1522 (data de um enterramento testemunhado numa bela pedra tumular, junto a capela-mor). Dedicada a N.ª Sr.ª da Consolação, este título poderá ter alguma influência do Convento Paulista de N.ª Sr.ª da Consolação de Alferrara, no termo de Palmela, fundado em 1383 e reformado em 1428 por Mendo Gomes Seabra, sabendo-se que era, no início do séc. XVI a casa religiosa mais próxima deste lugar e que eram estas comunidades religiosas que muitas vezes assistiam às populações mais distantes das matrizes paroquiais.

Os primeiros registos paroquiais, fruto das reformas decididas pelo Concílio de Trento, datam já de 1581, sendo dos mais antigos do concelho do Seixal.

Em 1620, segundo Frei Nicolau de Oliveira (Livro das Grandezas de Lisboa), Arrentela tinha 350 fogos, com 890 habitantes.

(Igreja Matriz de Arrentela)

Na primeira metade do século XVIII (Dicionário Geográfico de 1747) o pároco de Arrentela tinha o título de Cura, e a paróquia tinha «quatro Irmandades: uma do Santíssimo Sacramento com seu capelão, outra das Almas também com seu capelão, tem outra de São Pedro, e outra de Nossa Senhora do Rosário; e uma confraria do Senhor Jesus, e Nossa Senhora da Soledade com um capelão a quem pagam os homens do mar do seu bolsinho, como também o partido do Médico, Cirurgião, e Boticário, e de presente tiram para as obras da Igreja a metade do ganho dos seus barcos».

Com o terramoto de 1755 ruiu a Igreja Paroquial, pelo que houve a necessidade de a reedificar, obra levada a cabo pelo povo da freguesia que por ser fabriqueiro da mesma teve de fazer esta obra sem mais apoio do que a força e trabalho do mesmo.

(Memorial da reedificação da Igreja Matriz)

No século XIX o pároco de Arrentela já tinha o título de Prior e a maioria das Confrarias ou Irmandades já tinham sido extintas.

Foi ainda durante o século XVIII que foram subtraídas à área da paróquia da Arrentela novas freguesias que se estabeleceram nos lugares do Seixal, por Provisão de D. Tomás de Almeida, 1.º Cardeal Patriarca de Lisboa, dada em 23 de Junho de 1734 (Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 9, pp. 76-81), e de Aldeia de Paio Pires, por Provisões dadas pela Ordem de Santiago, em 23 de Janeiro de 1797 (DGARQ-TT, Ordem de Santiago, Chancelaria de D. Maria, Liv. 7, fól. 24), e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa D. José de Mendonça, em 25 de Fevereiro de 1797 –(Patriarcado de Lisboa, Arquivo Histórico, Ms. 298, fól. 217).


Torre da Marinha
A localidade da Torre ou Torre da Marinha é uma das mais antigas da Freguesia de Arrentela e seu nome poderá ter uma de duas origens: ou uma antiga Torre de Vigia, ou uma antiga Casa senhorial acastelada que aqui terá existido, conforme parece indicar uma escritura de arrendamento lavrada em Lisboa em 4 de Setembro de 1572 por uma tal de «Valentina Brandoa, viúva de Lourenço de Moura, moradora no Castello da sua Quinta da Senhora da Consolação na Arrentela» (Index de Notas de Vários Tabeliães de Lisboa, Vol. IV, p. 149).

Ao topónimo Torre juntou-se mais tarde o «da Marinha» para a distinguir da outra Torre que existia no século XVIII termo de Almada, a Torre de Caparica.

Na Torre da Marinha havia uma quinta que era conhecida pela Quinta da Torre, que sabemos ter existido em 1590 (Vieira, 1993, V.1, p.347) e que em 1621 pertencia a Valentim Themudo.

Sabemos também que na Torre ou próximo dela houve até ao século XVIII-XIX pelo menos 3 capelas particulares onde se podia dizer missa, a saber:

- A Ermida de St.ª Ana, na Quinta Nova «do Inglês», que em 1758 pertencia a Bartolomeu Xavier, seria contudo mais antiga pois já em 1675 se celebrou um casamento na Quinta Nova (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 3, fól. 60) [Revisto em 21-9-2011];

- A Ermida da Quinta de S. Lourenço, na Lagoa Seca, que em 1676 pertencia a Manuel Antunes (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Óbitos, Liv. 3, fól. 11v) e no século XVIII aparece referida nas Visitações eclesiásticas do Patriarcado de Lisboa;

- A Ermida de N.ª Sr.ª das Dores, edificada em 1803 pelo Pe. João António Correia na sua Quinta da Prata (Cf. Rui Mendes, «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no século XVIII», Anais de Almada, 11-12 (2008-2009), pp. 67-138, 2010, Almada);


Já no século XX foi edificada a:

- A Capela de N.ª Sr.ª da Soledade, edificada cerca de 1937 (segundo parecia indicar um registo azulejar local, actualmente em depósito na C.M.S., com a imagem da padroeira e que registava esta data), na Quinta das Laranjeiras ou de N.ª Sr.ª da Soledade, antiga Quinta da Casa de Pau, que nos anos 60 pertencia a José Guilherme Carvalho Duarte, e onde já em 1805 havia um Oratório particular pertencente ao Capitão João Crisóstomo e Silva  (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 9, fól. 77v) [Adicionado em 21-9-2011].



As condições naturais propícias, sobretudo com a abundância de água, trouxeram para a Torre a indústria dos lanifícios, primeiro com um um lavadoiro de lãs e depois com uma uma fábrica de mantas para o exército em 1831. É no entanto com a implementação em 1855 da Fábrica de Lanifícios da Arrentela por Júlio Caldas Aulete e que em 1862 se estabeleceu como “Companhia de Lanifícios de Arrentela”, que esta indústria ganha projecção quer nacional quer até mesmo internacional.

Em 1872, um grupo de operários da Companhia de Lanifícios de Arrentela fundou a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense, que em 30 de Maio de 1901 recebeu do Rei D. Carlos o Título de «Real» (Nuno Borrego, Mordomia Mor da Casa Real, Tomo II, p. 542). Em 1914, a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense fundiu-se com a Sociedade Honra e Glória Arrentelense dando origem à actual Sociedade Filarmónica União Arrentelense (SFUA) (http://www.sfua.pt/) [Adicionado em 21-9-2011].


É através da fixação de trabalhadores para a indústria que se vai consolidando urbanisticamente a Torre cujo núcleo central apresenta construções desse período 2.ª metade do século XIX e primeira do século XX.

Com o decréscimo da empregabilidade do sector dos lanifícios outros factores contribuíram para o crescimento urbano da Torre da Marinha, numa 1.ª fase a construção da Ponte sobre o Rio Tejo e respectiva ligação ao Fogueteiro assim como a instalação da Siderurgia Nacional em Paio Pires, numa 2.ª fase pós 25 de Abril o processo de descolonização seguido do boom urbanístico das periferias, sobretudo de Lisboa e Porto.

Em termos arquitectónicos e patrimoniais a Torre da Marinha apresenta um grande grau de descaracterização quer do seu património de cariz rústica quer industrial, sobrevindo as instalações fabris da Companhia de Fiação e existindo já poucos vestígios recuperáveis das antigas circundantes.

Do ponto de vista urbano o núcleo histórico apresenta algumas habitações da primeira metade do século XX.

Em termos de equipamentos para além das Piscinas [e do Pavilhão Municipal] apresenta-se como elemento arquitectónico mais característico a Escola Primária do Plano dos Centenários, tão típica da Arquitectura do Estado Novo, sendo neste caso uma obra de 1955 pelo Eng.º Rogério Leão de Almeida.
(Boletim do Ministério das Obras Públicas, 1955)

A construção e inauguração da nova Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima traz assim uma mais valia para o património, não só desta localidade, como também desta freguesia e deste Concelho.


RUI M. MENDES
Arrentela, 18 de Setembro de 2011

Torre da Marinha (Arrentela): Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima

O Homem Sonha, a Ideia Nasce, a Obra Acontece
O dia de 18 de Setembro de 2011 foi uma data histórica para a Comunidade da Torre da Marinha, localidade da Freguesia de Arrentela, no Concelho e Cidade do Seixal. Foi inaugurada e dedicada a nova igreja da localidade com o título de «Igreja de Nossa Senhora de Fátima da Torre da Marinha» e que irá passar a funcionar também como Centro Paroquial da Paróquia de Nossa Senhora da Consolação de Arrentela, paróquia e freguesia de que esta localidade faz parte.

(Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima da Torre da Marinha)

Obra que nasceu do sonho de um homem, o Padre David Pinho Esteves, que tem estado à frente dos destinos da paróquia de Arrentela desde os anos 70, a nova Igreja é a concretização de um projecto que começou a tomar os seus primeiros passos à quase duas décadas, quando se formou na localidade da Torre da Marinha uma Comunidade Católica sob a protecção de «Santa Ana» padroeira de uma velha capela particular do século XVIII que existiu na antiga «Quinta Nova» [1] propriedade agrícola já desaparecida (hoje ocupada parcialmente pelo Centro Comercial “Rio Sul” junto à Estação do Fogueteiro).

Segundo nos relata a Comissão instaladora da Igreja da Torre da Marinha em Notas históricas da Construção da Nova Igreja da Torre da Marinha [2], a primeira nota do seu livro de actas refere-se a uma reunião em 9 de Novembro de 1991 em que estiveram presentes vários membros da comunidade, juntamente com o Pároco, Padre David Pinho Esteves.
Em 1993 já existia um projecto de arquitectura para a referida quinta.

Entretanto diversos foram os locais de culto em espaços provisórios onde se reuniam semanalmente os católicos desta localidade, entre eles:
- Instalações do Independente Futebol Clube (Torreense);
- Instalações dos Tempos Livres, junto ao Pavilhão Municipal da Torre da Marinha;

O lançamento da 1.ª pedra foi marcado para 16 de Outubro de 1994 com a presença do Sr. Bispo D. Manuel Martins, dos presidentes da Câmara e da Junta de Freguesia e representantes do Continente, em cujos terrenos se situava a referida quinta.

Dada a exiguidade do terreno encravado pelos diversos acessos quer ao Centro Comercial quer à Nova Estação do Fogueteiro, foi decido abandonar o projecto inicial e tentar a permuta dos terrenos por outros mais bem localizados, processo que durou de 1997 a 2004.

Em 18 de Agosto de 2004 iniciou-se o processo de licenciamento do novo projecto de arquitectura, da responsabilidade do Arquitecto Alberto José Marques (originário da freguesia de Arrentela), e a obtenção das licenças de construção, o que foi despachado em Maio de 2008, tendo-se formado então uma Comissão de obras, composta pelo Padre David, José Lopes da Silva, Luís Silva, Isaías Xavier dos Santos, António Aleixo e Duarte Castanheira, que passou a acompanhar todo o processo.

Em 1 de Julho de 2009 e depois de várias diligências começa a obra de construção da responsabilidade das seguintes empresas:
1ª Fase:
- Estruturas/Alvenarias/Rebocos Exteriores – “Britalar”
2ª Fase:
- Acabamentos Interiores da Capela de dia /Capela Mór /Coro Alto /Cartório e Sacristia /Salas mortuárias – “Iceblock”.
- Fiscalização:
“Negril”

Passado 1 ano da sua construção celebrou-se logo em 21 de Março de 2010, a 1.ª missa, presidida pelo Sr. Bispo de Setúbal, sendo então decidido dedicar a nova igreja a «Nossa Senhora de Fátima», primeira com este título no Concelho do Seixal [3].

Finalmente a igreja de N.ª Sr.ª de Fátima da Torre da Marinha é inaugurada e dedicada em 18 de Setembro de 2011, pelas 16h00m em cerimónia presidida pelo Sr. Bispo de Setúbal, D. Gilberto dos Reis, e pelo Pe. David acompanhado de outros padres da Diocese de Setúbal.

Nesta cerimónia, bastante concorrida, estiveram presentes além do concelebrantes, e membros da Comissão de Obras, os Presidentes da Câmara Municipal do Seixal, Sr. Alfredo Monteiro, e da Junta de Freguesia de Arrentela, D.ª Teresa Nunes, o autor do projecto, o Arq.º Alberto José Marques, outras autoridades locais, convidados e representantes das empresas de construção, e claro toda a Comunidade Católica da Torre da Marinha que preencheu na sua totalidade os lugares da Igreja.

 

Foi uma cerimónia bela e solene iniciada pelo descerramento no átrio, pelo Sr. Bispo, de uma placa em mármore evocativa da mesma, seguida pela entrega das chaves da Igreja ao Sr. Bispo, abertura da porta principal e a Entrada no Templo liderada pelo Pastor maior da Diocese seguido dos fiéis. Seguiram-se as cerimónias próprias do ritual de bênção e dedicação de novos templos católicos, incluindo a aspersão do altar e do templo, a unção do altar, a incensação do altar e do templo e a iluminação festiva.

Seguiu-se depois a celebração da Eucaristia, foco principal desta cerimónia, já no novo espaço sagrado.
Toda a cerimónia foi acompanhada de belos cantos corais e de uma excelente peça instrumental de flauta de matiz barroca, ambos favorecidos aliás pela excelente acústica do novo espaço de culto.
Por fim procedeu-se ainda à bênção do Sacrário e da Capela do Santíssimo.

Nos discursos finais além do Sr. Bispo D. Gilberto, falaram também, em nome da Comissão de Obras, o Sr. Duarte Castanheira, o Sr. Presidente da Câmara, a Sr.ª Presidente da Junta, e o Pároco, Pe. David, que transmitiu mensagens de felicitações quer do Sr. D. Manuel Martins, Bispo Emérito da Diocese de Setúbal, quer do Sr. D. Albino Cleto, Bispo de Coimbra, antigo Seminarista de S. Paulo de Almada.

(Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima da Torre da Marinha)

Quanto ao edifício si trata-se de uma igreja moderna, cuja nave principal é um enorme volume elipsoidal em forma de torre e a fazer lembrar uma quilha de um navio. Os principais materiais de revestimento foram o cimento branco, o ladrilho cerâmico cor de tijolo, e o vidro, em especial nas pequenas janelas laterais, em janelões frontais virados a poente e ainda em secções do telhado, os quais introduziram no interior do templo uma luminosidade muito agradável e reconfortante.
O espaço de culto é constituído por uma ampla nave sem distinção entre a assembleia e a capela-mor, com uma altura de 4~5 pisos e com 2 conjuntos de 3 colunas apostas nas paredes laterais.

(Capela-mór)

A Capela mór contém além do altar mór, ao centro, uma cruz ao alto na parede de topo a qual não apresenta qualquer retábulo, apenas dois nichos laterais um do lado do evangelho com a imagem da padroeira «N.ª Sr.ª de Fátima» e outro do lado da epístola com a imagem de «S. José Operário», uma homenagem ao povo operário que esteve na génese e desenvolvimento desta localidade. Ambas as imagens adquiridas à empresa «Paramentaria de Fátima».

 
(Nichos de N.ª Sr.ª de Fátima e S. José Operário)

Ainda na Capela mór encontram-se do lado esquerdo a pia baptismal (sem baptistério) e o púlpito, ambos peças em mármore.

O corpo central da nave é ocupado pela assembleia que é constituída por aproximadamente 400 lugares sentados a que se juntam mais cerca de 250 lugares no coro-alto. Adjacentes à nave, do lado direito, temos ainda a Capela do Santíssimo com cerca de 50 lugares e onde se encontra o Sacrário, sem dúvida a peça de arte sacra mais interessante do novo templo, constituído por um cofre embutido na parede cuja porta apresenta o acrónimo IHS ladeado por Espigas e Cachos de Uvas, representando o Pão e o Vinho, ou seja o Corpo e o Sangue de Cristo.

(Sacrário)

Arquitectonicamente é um projecto cujo desenho exterior e a forma do remate frontal encimado pelo cruzeiro, apresenta claras reminiscências de Mario Botta (por ex.º da Catedral de Evry - França) embora aqui o cilindro seja transformado numa forma semi-elipsóide. O uso assimétrico das pequenas janelas, embora de forma muito mais modesta, recorda também «Notre Dame de Haut» de LeCorbusier obra matricial do Movimento de Renovação da Arte Religiosa do século XX. Por outro lado a utilização da simbologia marítima no desenho da igreja não é temática original, pois já fora utilizada, pelo menos em Portugal, pelo Pe. Manuel Gonçalves na Igreja de Caxinas (Vila do Conde) ou mais recentemente por Troufa Real na Igreja de S. Francisco Xavier (Lisboa), é no entanto aqui feita de uma forma muito mais subtil.



(Interior da Igreja)

O Interior do templo faz lembrar obras de referência da Arquitectura Religiosa Contemporânea Portuguesa, desde logo a luminosidade da Capela mór da Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa, de Nuno Teotónio Pereira, ou a verticalidade da nave da Igreja de Santa Maria do Marco de Canavezes, de Siza Vieira, ou a limpidez e sobriedade da Igreja de Santo António de Portalegre, de Carrilho da Graça.

Apesar do enquadramento urbanístico não deixar respirar o desenho e cercear as suas potencialidades, é no entanto um projecto que apresenta uma proposta iconográfica única e própria que lhe dá identidade e originalidade que honra sem dúvida o património arquitectónico e histórico da freguesia e do concelho.

(Fachada poente)

Estando agora concluída a fase de construção da igreja, cujo custo total foi de cerca de 1.800.000 €, dos quais faltam ainda pagar 300.000 €, esperamos que, e apesar das dificuldades dos tempos correntes, a generosidade do povo Arrentelense se manifeste mais uma vez, e como também o fizeram os seus antepassados quando edificaram e reconstruíram após o terramoto do 1755 a bela Igreja matriz, seja agora possível pagar o que falta e colocar rapidamente mãos à obra para concluir o restante projecto!

(Fachada nascente)

RUI M. MENDES
Arrentela, 18 de Setembro de 2011

Notas:
[1] Citada pelo Pe. Manuel Vieitas de Macedo, cura de Arrentela, nas Memórias Paroquiais de 1758 como a «Ermida de Santa Ana na quinta nova chamada do Ingres que é do Bartolomeu Xavier [Baptista], Oficial dos Contos», seria contudo mais antiga pois já em 1675 se celebrou um casamento na Quinta Nova (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 3, fól. 60). Em 1706 era aparece nos registos paroquiais uma «Quinta Nova do Inglês» propriedade de Guilherme e Maria Barquer (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Óbitos, Liv. 5, fól. 142v). No século XVIII e XIX esta quinta também foi conhecida por Quinta Nova do Rio Judeu.

[2] Comissão instaladora da Igreja da Torre da Marinha, Notas históricas da Construção da Nova Igreja da Torre da Marinha
Site: https://sites.google.com/site/paroquiadearrentela/igreja-da-torre-da-marinha/comissao-instaladora-da-igreja-da-torre-da-marinha

[3] Embora já exista uma capela particular da mesma invocação, réplica da existente na Cova da Iria e edificada em 1956 pelo comerciante Paulo Augusto dos Santos, na sua Quinta no Alto do Moinho, na sequência de uma promessa feita pela saúde da sua filha.

Ver também:
História da Paróquia de Arrentela e da Torre da Marinha
O Concelho do Seixal e a Fábrica de Lanifícios de Arrentela em 1862