segunda-feira, 19 de setembro de 2011

História da Paróquia de Arrentela e da Torre da Marinha

(Nota: Este Artigo poderá ser revisto no futuro caso se justifique, e quaisquer revisões serão assinaladas com a respectiva [DATA])


A Arrentela é povoação antiga, sendo já citada em Crónicas do século XIV, no entanto a ocupação humana destes lugares é muito mais antiga como comprovam as recentes escavações de uma Villa Romana na Quinta de S. João e na Quinta da Laranjeira ou das Laranjeiras (com vestígios dos Períodos Romano, Medieval e Moderno).
Foi no entanto por volta da segunda metade do século XIV, princípios do século XV, que os lugares ribeirinhos da Baía do Seixal (a chamada «Barca de Martim Afonso») começaram a ser mais aproveitados economicamente como documentará mais tarde a construção de vários moinhos de água nas suas margens. Por outro lado e já no século XV o início da epopeia marítima trouxe até estas margens novas actividades ou desenvolveu as existentes como a construção naval ou a produção de bens alimentícios como o biscoito ou ainda a vinha, basta lembrar que já nesse século e no seguinte os vinhos do Seixal, junto com os de Caparica, eram dos mais famosos da Europa .

Na segunda metade do século XVI Gaspar Frutuoso na sua obra Saudades da Terra ao descrever esta margem do Tejo fala do «Seixal também chamado Arrentela, onde se dão muitos bons vinhos de carregação para a Índia» (cit. Francisco M. Silva, Ruralidade em Almada e Seixal. Tese de Mestrado, 2008, p. 17).

É todo este desenvolvimento económico que traz a estas paragens novas populações que por sua vez se vão constituindo em novas comunidades cada vez mais reivindicativas dos seus direitos, entre eles o direito a não enterrarem os mortos longe dos seus entes queridos, o direito a terem um lugar onde pudessem assistir ao culto religioso sem terem de se deslocar às sede municipal, e por fim o direito a elegerem o seu próprio ministro ou capelão sem terem de estar dependentes das disponibilidades de terceiros.

É assim que nos lugares mais distantes do termo da vila de Almada (onde Arrentela se inseria nesse tempo) que nos séculos XIV-XV vão sendo edificadas pequenas ermidas e onde a partir do último quartel do século XVI se estabelecem novas freguesias com capelão para a cura das almas eleito pelos fregueses dessas ermidas.

(Cruzeiro de Arrentela, local de culto mais antigo do lugar ?)

É neste contexto que surge a Freguesia de Arrentela, não sabemos em que data e muito menos em que ano exacto, sabemos apenas que essa erecção aconteceu por iniciativa do povo que se reunia regularmente na sua «Ermida de Santa Maria de Arrentela», a qual já existia pelo menos antes de 1478 (ano em que foi visitado pelos visitadores da Ordem de Santiago), o qual impetrou junto da Santa Sé uma Petição de Licença para terem um Capelão com Cura de Almas que fosse eleito e sustentado pelos próprios fregueses com a obrigação de dizer missa na sua ermida nos Domingos e Dias Santos e de ministrar os demais sacramentos.
Foi aliás processo idêntico ao verificado na Caparica (que alcançou esse direito em 1472) assim como na Amora (que já tinha capelão com cura de almas em 1527).

As inscrições mais antigas na Igreja de Arrentela apontam a sua edificação próxima de 1519 e 1522 (data de um enterramento testemunhado numa bela pedra tumular, junto a capela-mor). Dedicada a N.ª Sr.ª da Consolação, este título poderá ter alguma influência do Convento Paulista de N.ª Sr.ª da Consolação de Alferrara, no termo de Palmela, fundado em 1383 e reformado em 1428 por Mendo Gomes Seabra, sabendo-se que era, no início do séc. XVI a casa religiosa mais próxima deste lugar e que eram estas comunidades religiosas que muitas vezes assistiam às populações mais distantes das matrizes paroquiais.

Os primeiros registos paroquiais, fruto das reformas decididas pelo Concílio de Trento, datam já de 1581, sendo dos mais antigos do concelho do Seixal.

Em 1620, segundo Frei Nicolau de Oliveira (Livro das Grandezas de Lisboa), Arrentela tinha 350 fogos, com 890 habitantes.

(Igreja Matriz de Arrentela)

Na primeira metade do século XVIII (Dicionário Geográfico de 1747) o pároco de Arrentela tinha o título de Cura, e a paróquia tinha «quatro Irmandades: uma do Santíssimo Sacramento com seu capelão, outra das Almas também com seu capelão, tem outra de São Pedro, e outra de Nossa Senhora do Rosário; e uma confraria do Senhor Jesus, e Nossa Senhora da Soledade com um capelão a quem pagam os homens do mar do seu bolsinho, como também o partido do Médico, Cirurgião, e Boticário, e de presente tiram para as obras da Igreja a metade do ganho dos seus barcos».

Com o terramoto de 1755 ruiu a Igreja Paroquial, pelo que houve a necessidade de a reedificar, obra levada a cabo pelo povo da freguesia que por ser fabriqueiro da mesma teve de fazer esta obra sem mais apoio do que a força e trabalho do mesmo.

(Memorial da reedificação da Igreja Matriz)

No século XIX o pároco de Arrentela já tinha o título de Prior e a maioria das Confrarias ou Irmandades já tinham sido extintas.

Foi ainda durante o século XVIII que foram subtraídas à área da paróquia da Arrentela novas freguesias que se estabeleceram nos lugares do Seixal, por Provisão de D. Tomás de Almeida, 1.º Cardeal Patriarca de Lisboa, dada em 23 de Junho de 1734 (Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Vol. 9, pp. 76-81), e de Aldeia de Paio Pires, por Provisões dadas pela Ordem de Santiago, em 23 de Janeiro de 1797 (DGARQ-TT, Ordem de Santiago, Chancelaria de D. Maria, Liv. 7, fól. 24), e pelo Cardeal Patriarca de Lisboa D. José de Mendonça, em 25 de Fevereiro de 1797 –(Patriarcado de Lisboa, Arquivo Histórico, Ms. 298, fól. 217).


Torre da Marinha
A localidade da Torre ou Torre da Marinha é uma das mais antigas da Freguesia de Arrentela e seu nome poderá ter uma de duas origens: ou uma antiga Torre de Vigia, ou uma antiga Casa senhorial acastelada que aqui terá existido, conforme parece indicar uma escritura de arrendamento lavrada em Lisboa em 4 de Setembro de 1572 por uma tal de «Valentina Brandoa, viúva de Lourenço de Moura, moradora no Castello da sua Quinta da Senhora da Consolação na Arrentela» (Index de Notas de Vários Tabeliães de Lisboa, Vol. IV, p. 149).

Ao topónimo Torre juntou-se mais tarde o «da Marinha» para a distinguir da outra Torre que existia no século XVIII termo de Almada, a Torre de Caparica.

Na Torre da Marinha havia uma quinta que era conhecida pela Quinta da Torre, que sabemos ter existido em 1590 (Vieira, 1993, V.1, p.347) e que em 1621 pertencia a Valentim Themudo.

Sabemos também que na Torre ou próximo dela houve até ao século XVIII-XIX pelo menos 3 capelas particulares onde se podia dizer missa, a saber:

- A Ermida de St.ª Ana, na Quinta Nova «do Inglês», que em 1758 pertencia a Bartolomeu Xavier, seria contudo mais antiga pois já em 1675 se celebrou um casamento na Quinta Nova (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 3, fól. 60) [Revisto em 21-9-2011];

- A Ermida da Quinta de S. Lourenço, na Lagoa Seca, que em 1676 pertencia a Manuel Antunes (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Óbitos, Liv. 3, fól. 11v) e no século XVIII aparece referida nas Visitações eclesiásticas do Patriarcado de Lisboa;

- A Ermida de N.ª Sr.ª das Dores, edificada em 1803 pelo Pe. João António Correia na sua Quinta da Prata (Cf. Rui Mendes, «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua história no século XVIII», Anais de Almada, 11-12 (2008-2009), pp. 67-138, 2010, Almada);


Já no século XX foi edificada a:

- A Capela de N.ª Sr.ª da Soledade, edificada cerca de 1937 (segundo parecia indicar um registo azulejar local, actualmente em depósito na C.M.S., com a imagem da padroeira e que registava esta data), na Quinta das Laranjeiras ou de N.ª Sr.ª da Soledade, antiga Quinta da Casa de Pau, que nos anos 60 pertencia a José Guilherme Carvalho Duarte, e onde já em 1805 havia um Oratório particular pertencente ao Capitão João Crisóstomo e Silva  (DGARQ-ADS, Registos Paroquiais, Arrentela, Casamentos, Liv. 9, fól. 77v) [Adicionado em 21-9-2011].



As condições naturais propícias, sobretudo com a abundância de água, trouxeram para a Torre a indústria dos lanifícios, primeiro com um um lavadoiro de lãs e depois com uma uma fábrica de mantas para o exército em 1831. É no entanto com a implementação em 1855 da Fábrica de Lanifícios da Arrentela por Júlio Caldas Aulete e que em 1862 se estabeleceu como “Companhia de Lanifícios de Arrentela”, que esta indústria ganha projecção quer nacional quer até mesmo internacional.

Em 1872, um grupo de operários da Companhia de Lanifícios de Arrentela fundou a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense, que em 30 de Maio de 1901 recebeu do Rei D. Carlos o Título de «Real» (Nuno Borrego, Mordomia Mor da Casa Real, Tomo II, p. 542). Em 1914, a Sociedade Filarmónica Fabril Arrentelense fundiu-se com a Sociedade Honra e Glória Arrentelense dando origem à actual Sociedade Filarmónica União Arrentelense (SFUA) (http://www.sfua.pt/) [Adicionado em 21-9-2011].


É através da fixação de trabalhadores para a indústria que se vai consolidando urbanisticamente a Torre cujo núcleo central apresenta construções desse período 2.ª metade do século XIX e primeira do século XX.

Com o decréscimo da empregabilidade do sector dos lanifícios outros factores contribuíram para o crescimento urbano da Torre da Marinha, numa 1.ª fase a construção da Ponte sobre o Rio Tejo e respectiva ligação ao Fogueteiro assim como a instalação da Siderurgia Nacional em Paio Pires, numa 2.ª fase pós 25 de Abril o processo de descolonização seguido do boom urbanístico das periferias, sobretudo de Lisboa e Porto.

Em termos arquitectónicos e patrimoniais a Torre da Marinha apresenta um grande grau de descaracterização quer do seu património de cariz rústica quer industrial, sobrevindo as instalações fabris da Companhia de Fiação e existindo já poucos vestígios recuperáveis das antigas circundantes.

Do ponto de vista urbano o núcleo histórico apresenta algumas habitações da primeira metade do século XX.

Em termos de equipamentos para além das Piscinas [e do Pavilhão Municipal] apresenta-se como elemento arquitectónico mais característico a Escola Primária do Plano dos Centenários, tão típica da Arquitectura do Estado Novo, sendo neste caso uma obra de 1955 pelo Eng.º Rogério Leão de Almeida.
(Boletim do Ministério das Obras Públicas, 1955)

A construção e inauguração da nova Igreja de N.ª Sr.ª de Fátima traz assim uma mais valia para o património, não só desta localidade, como também desta freguesia e deste Concelho.


RUI M. MENDES
Arrentela, 18 de Setembro de 2011

4 comentários:

  1. Bom dia Rui, vivi toda a minha vida na Amora, e lembro me em pequena de ver da minha janela uma casa que na altura me parecia imensa, num alto na torre da Marinha, casa essa estar demolida actualmente, nunca lá fui e sempre fiquei com pena de não ter conhecido a sua historia. Voce por acaso sabe alguma coisa sobre essa casa?

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  2. Bom dia Rui, vivi toda a minha vida na Amora, e lembro me em pequena de ver da minha janela uma casa que na altura me parecia imensa, num alto na torre da Marinha, casa essa estar demolida actualmente, nunca lá fui e sempre fiquei com pena de não ter conhecido a sua historia. Voce por acaso sabe alguma coisa sobre essa casa?

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    1. Boa Tarde,

      Quando refere o alto da Torre da Marinha, refere-se ao que fica entre a Escola da Arrentela e a Torre da Marinha, onde havia as Quintas de Nossa Senhora da Soledade (hoje demolida e propriedade da Câmara) e a Quinta das Laranjeiras, que vinha até à mata?

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  3. INFLUÊNCIA DO AMBIENTE NA SELEÇÃO DA PEDRA CALCÁRIA DE LIOZ NA A.M.L. (ÁREA METROPOLITANA DE LISBOA)
    O presente estudo, resulta da adaptação de uma tese de mestrado, apresentada junto da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, no âmbito do Curso de Mestrado em Tecnologia da Arquitetura e Qualidade Ambiental, realizado entre 1993 a 1994. Visa essencialmente determinar os motivos históricos, compreendidos no período da alimentação da economia Portuguesa, pelo ouro derivado da colónia do Brasil, e viabilidade funcional no uso, que levaram à preferência na adopção da pedra calcária de lioz, para fazer face às características do ambiente na A.M.L. (Área Metropolitana de Lisboa), aponta similarmente precauções a ter na sua utilização e aplicação construtiva. Tendo como base a seleção de quatro localidades para amostras, expostas ao mar, interior urbano e rural, identificando as patologias e razões do seu desenvolvimento, fornecendo também indicações para as contrariar. Finalizando com o estabelecimento de um nível de ponderação de importância a dar, nas suas propriedades físicas e químicas, no sentido de proporcionar um método de seleção deste tipo de pedra, na substituição em edifícios existentes, tirando proveito desses parâmetros para servirem ao mesmo tempo, na seleção da pedra calcária de lioz, na construção de novos edifícios. Tal como curiosidades proporcionadas pela propriedades da pedra calcária e como a obter artificialmente.
    Edifícios analisados: Palácio Ratton em Lisboa, Torreão Oriental da Praça do Comércio em Lisboa, Igreja de Nossa Senhora da Consolação em Arrentela no Concelho do Seixal e Igreja da Nossa Senhora do Monte Sião em Amora no Concelho do Seixal.
    Venda em: https://www.amazon.com/Influ%C3%AAncia-ambiente-sele%C3%A7%C3%A3o-calc%C3%A1ria-Portuguese/dp/154707230X
    Características: Folhas a preto e branco, número de páginas 521; Dimensão: 15,24x3,05x22,86 cm

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